Economia
Das compras ao consumo de cerveja: como o tempo influencia 70% da economia global
Sol na reta final do encantador mês de maio: uma perspetiva agradável partilhada por muitos. Este estado de espírito coletivo representa, além disso, uma oportunidade económica que não é ignorada.
As condições meteorológicas afetam, em primeiro lugar, o quotidiano de todos: a forma como organizamos as atividades de lazer, férias ou viagens. Mas, para além dos comportamentos individuais, existe todo um sistema económico que tanto pode descolar como parar completamente.
As temperaturas afetam as vendas de roupa, lenha e sopas quentes no inverno, e de bebidas frescas, gelados e churrascos assim que chega o tempo quente. É a isto que se chama "sensibilidade meteorológica".
A sensibilidade de um setor às condições meteorológicas varia naturalmente consoante a natureza das atividades.
De acordo com Departamento de Comércio dos EUA, estima-se que 70% da economia global seja vulnerável a este fenómeno.
Em França, o diretor da Météo-France destaca que um quarto do PIB nacional depende diretamente das condições meteorológicas. Por seu lado, a Climpact-Metnex, líder europeia na gestão do impacto do clima na atividade empresarial, estima que 40% das vendas de bens de consumo são influenciadas pelo clima. O clima não é, portanto, apenas um tema para conversa fiada, mas uma realidade estrutural da nossa economia.
O CEO da Heineken apresentou ele prório os números há alguns anos: as vendas de cerveja disparam assim que a temperatura atinge os 22 graus. Cada grau acima desse valor traz um aumento de 2% no volume de negócios. No entanto, assim que a temperatura atinge os 28 graus, os consumidores passam da cerveja para os refrigerantes. Da sensibilidade às condições meteorológicas ao marketing meteorológico Grupos especializados estão agora a analisar dados climáticos para antecipar o seu impacto na atividade empresarial. Aconselham os retalhistas sobre os níveis de stock, promoções e campanhas de marketing, adaptando tudo às previsões meteorológicas de cada região.
Com o avanço da tecnologia digital, este tipo de marketing baseado nas condições meteorológicas ganhou um novo impulso. Já não se trata apenas de gerir os níveis de stock, mas sim de conquistar a atenção do público, reagindo ao momento presente. Veja-se, por exemplo, as promoções de leques e guarda-sóis que deverão surgir nos próximos dias.
Mas o impacto do tempo não se limita às prateleiras dos supermercados; estende-se até às salas de negociação. Investigadores financeiros analisaram a relação entre o tempo e o desempenho dos mercados bolsistas em 26 mercados financeiros globais. A sua conclusão é surpreendente: em 18 desses 26 mercados, quanto melhor o tempo, melhor é o desempenho dos mercados. A diferença de desempenho entre os dias de sol e dias muito nublados é, em média, de 24,6 pontos percentuais.Psicologia em ação O tempo influencia o nosso estado de espírito, e o nosso estado de espírito influencia a perceção do risco. Quando milhões de investidores partilham a mesma mentalidade, isso tem um impacto direto nos preços das ações.
Para aprofundar esta linha de pensamento, com as alterações climáticas, o tempo já não se limita a afetar o nosso estado de espírito: provoca catástrofes económicas que acarretam custos astronómicos.
Uma melhor antecipação destes eventos ajuda a evitar perdas avultadas. No ano passado, o recrutamento de meteorologistas e especialistas em dados climáticos aumentou quase 25% nos fundos de investimento, de acordo com dados da empresa de recrutamento Proco Group. Por vezes, os especialistas são contratados a preços elevados para ajudar a antecipar melhor os movimentos do mercado.
Em suma, o clima influencia o nosso comportamento de compra (marketing), bem como o nosso estado de espírito e, consequentemente, as nossas decisões financeiras nos mercados bolsistas.
De forma simples, antecipar essas variações permite proteger-nos. Os fenómenos meteorológicos extremos, agravados pelo aquecimento global, estão a tornar-se riscos económicos sistémicos que os intervenientes mais sofisticados procuram agora quantificar, prever e até transformar em ativos negociáveis. Isto leva-nos de volta ao dado inicial: 70 % da economia global é sensível à meteorologia.
Diane Burghelle-Vernet / 22 maio 2026 08:35 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP